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Armas e violência: o que dizem os dados?

Por Quê? Economês em bom português

13 de dezembro de 2017

A CONVERSA: Armar a população brasileira diminuiria a criminalidade? Ou causaria mais mortes?

NOSSA OPINIÃO: Não há evidências empíricas de que uma sociedade mais armada seja mais segura; se a finalidade de uma arma de fogo é justamente matar e/ou ferir, não há fundamento na tese de que mais armas diminuiriam casos de violência e homicídio.

O debate sobre armas é bastante importante e acalorado nos EUA. Principalmente após eventos trágidos, como quando algum cidadão desequilibrado abre fogo contra uma multidão de inocentes. Muitas vezes usando armas legalmente adquiridas. A discussão é também relevante para o Brasil, dado que aqui não faltam propostas para flexibilizar a posse legal de armas.

Para um economista, armas são instrumento de destruição. Elas não geram nada de positivo para a sociedade como um todo. Como sabemos disso? Pense assim: caso todas as armas do mundo desaparecessem de hoje para amanhã, todos estariam melhor (com exceção dos bandidos). Ok, é verdade, algumas pessoas extraem prazer da posse de armas, fazem coleções, etc. Para essas, o fim apocalíptico das armas traria alguma tristeza…

Infelizmente, esse fim apocalíptico não virá amanhã, e então deixa de ser óbvio se faz sentido ou não liberar o porte de armas para o cidadão comum se defender.

Por um lado, num lugar cheio de gente armada – pense no Texas, por exemplo – o bandido em potencial vai ter mais medo de assaltar, pois sabe que as chances de tomar uma bala nas costas disparada por um terceiro é razoavelmente alta. Esse efeito pode gerar redução dos crimes. Por outro lado, uma briga tem mais chance em terminar em morte nos EUA do que na França. E mais armas em circulação livre por aí resultam em maior facilidade para um meliante adquiri-la.

Como o efeito é dúbio, perguntemos aos dados: dados, o que vocês dizem sobre a relação entre mortes e armas?

Mas os dados têm enorme dificuldade de identificar a direção da causalidade nessa relação. Veja só: pode ser que um certo local (EUA?) tenha mais armas e possua uma lei mais liberal de porte justamente porque o governante e a população  local entendem ser difícil dar conta de tanto bandido apenas com a força policial. Nesse caso, veremos mais armas e mais crimes. Mas a culpa não poderia ser honestamente atribuída à liberalidade em relação ao porte: o local já era contaminado de violência, o porte de armas para todos é  uma consequência. Do mesmo modo, se os dados mostram uma relação do tipo menos armas/menos crimes, não dá pra saber se foram as armas ausentes devido a uma lei dura que levaram a uma menor criminalidade, ou se justamente, dado o ambiente pacífico  do local, as pessoas não sentem necessidade de pressionar o governo por uma lei mais condescendente com o porte.

Nada, no entanto, muda o fato de que armas de fogo só sabem fazer uma coisa: matar/ferir.

Agora, menos controverso do que proibir porte de armas é reduzir o escopo de armas que podem ser vendidas ao público pagante nos EUA e tornar o processo de aquisição mais cuidadoso, menos açodado. Uma pessoa com histórico de violência ou com problemas psiquiátricos não pode adquirir uma arma na estante como  compra um analgésico  na farmácia da esquina. E, por meio de um  cadastro geral, seria interessante também tornar quase impossível a venda de mais de duas armas de fogo por pessoa. Ninguém precisa de 15 rifles, 10 pistolas e 5 revólveres para se proteger de um assaltante.

Mas se é tão óbvio que a lei de porte é frouxa demais nos EUA, por que não mudá-la amanhã? A resposta está na aliança de um poderosíssimo lobby da indústria de armamento com a arraigada tradição cultural de muitos norte-americanos, que lá atrás se armavam até os dentes para defender-se da ameaça de um governo centralizador e intervencionista, e ainda hoje acreditam que, armando-se, mantêm distante  a possibilidade de um governo tirânico.

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